sábado, 24 de dezembro de 2011

NATAL CONSCIENTE

o Natal feliz? por Rubem Alves

Natal me deixa triste. Porque, por mais que o procure, não o encontro. Natal é uma celebração. As celebrações acontecem para trazer do esquecimento uma coisa querida que aconteceu no passado. A celebração deve ser semelhante à coisa celebrada.

Não posso celebrar a vida de Gandhi com um churrasco. Ele era vegetariano, amava os animais. Uma celebração de Gandhi teria de ser feita com verduras, água, leite e um falar baixo. Mais a leitura de alguns textos que ele deixou escritos. Assim Gandhi se tornaria um dos hóspedes da celebração.

Agora, um visitante de outro planeta que nada soubesse das nossas tradições, se ele comparecesse às festas de Natal, sem que nenhuma explicação lhe fosse dada, ele concluiria que o objeto da celebração deveria ser um glutão, amante das carnes, bebidas, do estômago cheio, das conversas em voz alta, do desperdício.

Nossas celebrações de Natal são como as cascas de cigarra agarradas às árvores. Cascas vazias, das quais a vida se foi. Se perguntar às crianças o que é que está sendo celebrado, eles não saberão o que dizer. Dirão que o Natal é dia do Papai Noel, um velho barrigudo de barbas brancas amante do desperdício, que enche os ricos de presentes e deixa os pobres sem nada. Pois é certo que as celebrações do Natal são orgias de ricos, celebrações do desperdício e lixo. Celebrações do lixo? Aquelas pilhas de papel de presente colorido em que vieram embrulhados os presentes, não são elas essenciais às celebrações? Rasgados, amassados, embolados num canto. Irão para o lixo. Quantas árvores tiveram de ser cortadas para que aqueles papéis fossem feitos. Para quê? Para nada. A indiferença com que tratamos o papel de presentes é uma manifestação da indiferença com que tratamos a nossa Terra.

Estou convidando meus amigos para uma celebração de Natal. Ela deverá imitar a ceia que José e Maria tiveram naquela noite: velas acesas, um pedaço de pão velho, vinho, um pedaço de queijo, algumas frutas secas. À volta de um prato de sopa de fubá – comida de pobre –, tentaremos reconstruir na imaginação aquela cena mansa na estrebaria, um nenezinho deitado numa manjedoura, uma estrela estranha nos céus, os campos iluminados pelos vaga-lumes. E ouviremos as velhas canções de Natal, e leremos poemas, e rezaremos em silêncio. Rezaremos pela nossa Terra, que está sendo destruída pelo mesmo espírito que preside nossas orgias natalinas.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

POESIA DO DIA

Papai Noel as avessas

Papai Noel entrou pela porta dos fundos
(no Brasil as chaminés não são praticáveis),
entrou cauteloso que nem marido depois da farra.
Tateando na escuridão torceu o comutador
e a eletricidade bateu nas coisas resignadas,
coisas que continuavam coisas no mistério do Natal.
Papai Noel explorou a cozinha com olhos espertos,
achou um queijo e comeu.
Depois tirou do bolso um cigarro que não quis acender.
Teve medo talvez de pegar fogo nas barbas postiças
(no Brasil os Papai-Noéis são todos de cara raspada)
e avançou pelo corredor branco de luar.
Aquele quarto é o das crianças
Papai entrou compenetrado.
Os meninos dormiam sonhando outros natais muito mais lindos
mas os sapatos deles estavam cheinhos de brinquedos
soldados mulheres elefantes navios
e um presidente de república de celulóide.
Papai Noel agachou-se e recolheu aquilo tudo
no interminável lenço vermelho de alcobaça.
Fez a trouxa e deu o nó, mas apertou tanto
que lá dentro mulheres elefantes soldados presidente brigavam por causa do aperto.
Os pequenos continuavam dormindo.
Longe um galo comunicou o nascimento de Cristo.
Papai Noel voltou de manso para a cozinha,
apagou a luz, saiu pela porta dos fundos.
Na horta, o luar de Natal abençoava os legumes.

Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

CESAR DA HORA...

Cesar da Hora, artista e ser de alma Nõmade, que errou pela cidade Itajaí, professor de Entalhe em Madeira da Casa de Cultura Dide Brandão,

com muita tristeza que informo seu falecimento, sua passagem na noite de ontem, dia 18/12/2011, aos 55 anos, se foi deste mundo, partiu para viver outras caminhadas...

A família de César e amigos comunicam que seu corpo será velado no Cemitério da Fazenda.

A equipe da Casa da Cultura Dide Brandão, está em luto, já que este local escolhido por César durante tantos anos para produzir e compartilhar sua arte, lastima a perda desse grande artista e companheiro de todos.

“Os que morreram na primavera

quem sabe guardarão pra si

na alma ou na lembrança,

o milagre da flor.



Os que morreram na primavera

talvez tenham (os mais sensuais)

um pouco de tristeza

por não poderem ficar, pelo menos

até o verão.



Os que morreram na primavera

nós sentiremos saudades:

uma saudade

como se desfolhássemos uma margarida.

Bento Nascimento
poeta itajaiense

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Fundação Cultural Palmares inaugura Biblioteca no DF

Biblioteca será reinaugurada com acervo de aproximadamente 17 mil itens
Joceline Gomes

Na tarde de hoje (15), a Fundação Cultural Palmares vai inaugurar a Biblioteca Oliveira Silveira e o Arquivo da Fundação em sua nova sede, em Brasília. Na ocasião, também vai ser lançada a Coleção Faces do Brasil – História e Cultura, organizada pela professora Jacy Proença e publicada pela Editora Ética do Brasil, em parceria com a FCP.

Com um acervo de aproximadamente 17 mil itens entre livros, folhetos, periódicos, imagens e CD-ROMs, a biblioteca abrirá suas portas para o público fazer pesquisas e consultar materiais diversos. Especializada em cultura afro-brasileira, o local reúne fotos, pinturas, cartazes e materiais museológicos, como arte quilombola, palharia, cerâmica e telas, que guardam parte da memória negra. Há ainda uma sala de vídeo com espaço para 16 pessoas e terminais para acesso à internet.

A biblioteca foi originalmente inaugurada no dia 20 de novembro de 1998, porém, com a mudança de sede, ficou desativada por alguns meses, e agora será reinaugurada sob o nome Biblioteca Oliveira Silveira, em homenagem a este grande militante do Movimento Negro brasileiro.

Oliveira Silveira – Professor, poeta e militante do Movimento Negro, foi o idealizador do Dia da Consciência Negra, juntamente com o Grupo Palmares de Porto Alegre, ainda na década de 1970. Gaúcho e autor de inúmeros poemas e textos literários, seu primeiro trabalho foi o poema Germinou (1962), tendo ainda publicado: Poemas Regionais (1968); Banzo, Saudade Negra (1970); Décima do Negro Peão (1974); Praça da Palavra (1976); Pêlo Escuro (1977); e Roteiro dos Tantãs (1981).

A Biblioteca Oliveira Silveira disponibiliza a listagem do seu acervo bibliográfico sobre a cultura negra e a história da Diáspora Africana para consulta pública no site: http://biblioteca.palmares.gov.br.

Coleção – A coleção Faces do Brasil – História e Cultura é composta por 37 obras redigidas por professores, pesquisadores e escritores negros e indígenas de 14 estados brasileiros. Organizada pela professora Jacy Proença, ativista histórica do movimento negro brasileiro, a coleção é destinada a alunos do ensino fundamental e médio.

Serviço
O quê: Inauguração da Biblioteca Oliveira Silveira e lançamento da coleção Faces do Brasil – História e Cultura
Quando: Dia 15 de dezembro de 2011 (quinta-feira), às 18h
Onde: Fundação Cultural Palmares – SCS (Setor Comercial Sul), quadra 09, 1º andar, Edifício Parque Cidade Corporate, Torre B – Brasília-DF

http://www.palmares.gov.br/?p=16692#comment-2132

2° Prêmio Nacional de Expressões Culturais Afro-brasileiras inscrições até 16/12

Foram prorrogadas até 16 de dezembro as inscrições para o 2° Prêmio Nacional de Expressões Culturais Afro-brasileiras. Realizado pelo Centro de Apoio ao Desenvolvimento Osvaldo dos Santos Neves (Cadon) em parceria com a Fundação Cultural Palmares (FCP), o Prêmio tem como objetivo atender às expressões artísticas de estética negra dos segmentos de teatro, dança e artes visuais.



De acordo com Martvs das Chagas, diretor do Departamento de Fomento e Promoção da Cultura Afro-Brasileira da FCP, a prorrogação das inscrições significa uma oportunidade a mais para que os interessados colaborem no sentido de enriquecer com propostas que somem para a promoção e valorização das expressões culturais afro-brasileiras.

A primeira seleção de projetos, realizada em 2010, trabalhou com a produção artística de matriz africana e em atendimento à demanda do Fórum de Performance Negra. Com o patrocínio da Petrobras, através da lei Rouanet, foi possível contemplar 20 projetos. Em sua segunda edição, o Prêmio tem como proposta contemplar outros 20 com até R$1.100 milhão em prêmios.

Os projetos serão avaliados de acordo com os critérios de excelência artística, histórica e efetiva contribuição artística para a cultura negra, pertinência do conteúdo à questão afro-brasileira, qualificação dos profissionais e viabilidade técnica de execução, com base no valor do prêmio.

Para participar os interessados devem acessar o site www.premioafro.org e consultar o edital.

http://www.palmares.gov.br/?p=16692

CARPE DIEM

Carpe diem,
Quam minimum crédula postero”
Aproveita o dia de hoje,
E evita confiar no de amanhã.
Horácio

a mesa, o sol
espera por nós dois
não há tempo, meu bem
para o que virá depois

A cidade acorda
e grita pro mundo:
tudo vai bem, tudo vai mal
tudo é um absurdo!

Vem comigo agora
e aproveita o dia
o tempo que resta
o resto de tudo
e restante de poesia

Lá fora, a dor, eu sei
esmaga, oprime e mata;
aqui dentro também
a vida, as vezes, pesa
a tristeza, as vezes, devasta

Não me iludo
nem sofro a mais:
é preciso primeiro salvar
o que há de melhor em nós

Carpe diem

Carpe diem é poema de Marcelo Alves (poeta de Biguaçu/SC)que virou canção e dá título ao segundo disco, do trio Jeremias sem Cão, também da cidade catarina.

Carpe Diem e outros trabalhos do Trio podem ser conhecidos através do site
http://www.myspace.com/jeremiassemcao

Jeremias sem Cão

Formada em maio de 2001 na cidade de Biguaçu/SC, inicialmente utilizando-se do pseudônimo do escritor conterrâneo Marcelo Alves, que havia criado alguns poemas e gostaria de musicá-los.

Após as primeiras apresentações a parceria com a poesia (que seria para um projeto específico) solidificou-se e de maneira gradativa veio a se tornar uma das principais características da banda.

Jeremias Sem Cão desenvolve um trabalho fortemente ligado à palavra deixando que esta forneça elementos tanto rítmicos quanto melódicos na composição.
http://tramavirtual.uol.com.br/artistas/jeremias_sem_cao

duas ilhas e um céu...

Bike Bus: bicicleta também vai andar de ônibus



Desde o início do mês de abril, circulam na cidade de São Paulo alguns ônibus adaptados para transportar bicicletas na parte dianteira: os Bike Bus. A iniciativa é de uma das empresas paulistanas de ônibus, a Sambaíba, para incentivar as pessoas a deixarem o carro em casa.

Por enquanto, o serviço ainda não está disponível para a população e os Bike Bus estão circulando com os suportes de bicicleta vazios, apenas para ver como o veículo se adapta ao trânsito de São Paulo.

Quando realmente entrar em fase de teste – o que, segundo a SP Trans, ainda não tem data para acontecer –, a prefeitura traçará as rotas desses ônibus, que a princípio devem passar por regiões da cidade onde já existem ciclofaixas. Assim, o passageiro pode pedalar com segurança até o ponto de ônibus.

Se a iniciativa for bem aceita pela população, a Secretaria Municipal de Transportes promete implantar os suportes para bicicleta em todos os ônibus da cidade e, assim, transformar todos eles em Bike Bus.

Qual é a sua opinião sobre o projeto?
Vai funcionar?
Deve servir de modelo para outras cidades?

http://super.abril.com.br/blogs/planeta/bike-bus-bicicleta-tambem-vai-andar-de-onibus/

POESIA DO DIA

A maior riqueza do homem
é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou - eu não aceito.

Não agüento ser apenas um sujeito que abre portas,
que puxa válvulas, que olha o relógio,
que compra pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.

Perdoai
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas.
Manoel de Barros